A Câmara Municipal de Cuiabá comemora mais uma vez o Dia Internacional da Mulher (8 de março) e, nesta oportunidade, presta uma justa homenagem a uma das figuras mais dedicadas e virtuosas da nossa cidade. Referência da história cuiabana, ela marcou época ao atuar como vereadora nesta instituição legislativa entre os anos de 1963 e 1966, exercendo a presidência da Casa em 1965 – tornando-se a primeira mulher a comandar a Câmara de Cuiabá.
Não podemos limitar este artigo apenas à atuação política da homenageada. A extensa biografia de Ana Maria do Couto ultrapassa as margens desta redação, mas é nosso dever apresentá-la para tornar pública a sua trajetória e inspirar o público feminino em um país marcado pela desigualdade de gênero e, por vezes, carente da audácia feminina.
Ana Maria era carinhosamente conhecida como "May". O apelido surgiu logo ao nascer, pois seu irmão mais velho, ao se atrapalhar com as primeiras palavras, só conseguia chamá-la assim. Ela nasceu na capital mato-grossense no dia 13 de setembro de 1925. Nessa época, Cuiabá era uma cidade pacata — pequena demais para os horizontes da jovem que, aos 16 anos, partiu para o Rio de Janeiro, então capital do país, em busca de suas primeiras conquistas. Antes de retornar à terra natal, May recebeu cartas afetuosas que demonstravam sua empatia e a personalidade ímpar admirada pelos amigos cariocas. Um de seus professores escreveu-lhe:
"Se ainda existisse o genial Miguel Ângelo, e tivesse ele de pintar o quadro mais belo entre todos por ele criados, no qual fosse representado o que de mais sublime a natureza viva possui, bastaria pintar a sua imagem, e tudo estaria ali representado: VOCÊ!”
Outro registro partiu de um amigo visivelmente apaixonado:
"São tantos bons predicados que se reúnem em torno de tua meiga pessoa que não há expressão para descrevê-los. Diante de tanta bondade e simpatia, sinto-me quase dominado pelos impulsos do coração; porém, resisti à tentação ao observar que és apenas minha amiga e, como teu amigo, procurarei corresponder às expressões fiéis de tua camaradagem espontânea e cristalina.”
Ana Maria dedicou grande parte de sua vida ao esporte e à educação. Foi atleta no Clube Esportivo Fluminense e diplomou-se em Educação Física no Rio de Janeiro, em 1944. Mais tarde, cursou História, Contabilidade e, por fim, integrou a primeira turma da recém-inaugurada Faculdade de Direito de Mato Grosso. Lecionou Educação Física e História na Escola Normal Pedro Celestino, no Colégio Coração de Jesus e na Escola Estadual — atual Liceu Cuiabano, onde também foi diretora. Além de atleta, professora e contadora, consolidou-se como advogada, promotora judiciária, radialista, apresentadora de televisão e presidente de seu amado Clube Esportivo Dom Bosco.
Graças à sua imensa popularidade, Ana Maria do Couto, filiada ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), conquistou o voto de 442 eleitores nas eleições de 7 de outubro de 1962. "May do Couto", como era frequentemente registrada pelos taquígrafos da Câmara Municipal, tomou posse no dia 31 de janeiro de 1963, aos 37 anos. Analisar minuciosamente todas as suas atividades parlamentares demandaria tempo, mas o seu amor pelo povo e pela cidade natal permanece evidente em cada um de seus projetos e discursos.
O auge de sua carreira política ocorreu em 31 de janeiro de 1965, quando foi eleita presidente da Câmara Municipal de Cuiabá, obtendo sete dos 13 votos dos parlamentares. Em seu discurso de posse, declarou:
"Aos ilustres membros do nosso legislativo, que confiaram em mim a significação deste honroso mandato que se inicia, cabe-me expressar a sinceridade do meu melhor agradecimento, reafirmando a todos os presentes o meu propósito de cumprir e fazer cumprir os ordenamentos jurídicos que disciplinam a nossa vida orgânica, zelando pelo decoro e pelo bom nome da Casa Cuiabana, em nome do seu povo que nos deu oportunidade de sermos úteis à cidade que nos serviu de berço (...) sentimos que o nosso município precisa ser pensado para que, da comunhão dos nossos ideais e sentimentos, resulte bem nítido o projeto real da cidade moderna que desejamos que seja nossa heroica Cuiabá".
Lamentavelmente, May foi acometida precocemente por um câncer e faleceu aos 46 anos, no dia 17 de outubro de 1971. Enlutada, a cidade acompanhou dolorosamente o seu sepultamento. Em homenagem póstuma na Câmara Municipal, o vereador Ivo de Almeida declarou aos seus pares:
"Neste Plenário, em cada canto, ressoa ainda um som longínquo e saudoso daquela voz inigualável. A voz de May presidindo as sessões, aquele timbre inconfundível, o seu equilíbrio sereno nas decisões. Todos nós temos sua história. Felizes aqueles que conseguem escrever para a posteridade, em letras de ouro, mensagens de humorismo, de trabalho, de dignidade".
May foi audaz, pioneira e perspicaz. Viveu intensamente e deixou uma biografia invejável, agindo à frente de seu tempo, em uma época na qual Cuiabá ainda caminhava distante dos debates sobre a emancipação feminina.
Nada mais oportuno do que afirmar que a mulher de hoje se inspira na May de décadas atrás. Que a sua trajetória de vida sirva de inspiração a mulher, despertando a força para ecoar, aos quatro ventos, a conquista dos seus direitos.
Danilo Monlevade
Secretaria de Apoio à Cultura
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Fontes de pesquisa:
Arquivo Geral da Câmara Municipal de Cuiabá.
COUTO, Francisca do. Presença de May. Cuiabá, 1975.