"Servidores da Memória": a Taquigrafia na Câmara Municipal de Cuiabá

Secretaria de Apoio à Cultura
Cadernos de anotações de Cristiane Aparecida da Silva
Cadernos de anotações de Cristiane Aparecida da Silva
          A coluna Memórias do Legislativo Cuiabano foi criada em 2018 com o propósito de divulgar a história da Câmara Municipal de Cuiabá. Após um período de suspensão, o projeto foi retomado em novembro de 2023, com publicações mensais. Os artigos abordam temas no qual o parlamento cuiabano e os seus vereadores foram partícipes, e a principal fonte para as nossas pesquisas, são os livros atas, livros preenchidos continuadamente e cronologicamente com o registro de tudo que ocorre nas reuniões da Casa (Sessões, CPIs e Audiências Públicas). Após o registro, a ata é submetida à aprovação dos vereadores e rubricada pelo Presidente e pelo 1º Secretário, conferindo fé pública ao documento. Mas a quem cabe a tarefa de acompanhar e transcrever, em tempo real, os acontecimento? A resposta é: ao taquígrafo.

         O termo “taquígrafo” define o profissional que domina a taquigrafia, e a taquigrafia se define como a arte de se escrever tão depressa como se fala,  por meio de sinais e abreviaturas. De acordo com Ana Cristina Ramalho, taquigrafia é um termo geral que define todo o método abreviado ou simbólico de escrita, com o objetivo de melhorar a velocidade, acompanhando a fala humana. Vale destacar que a técnica não se restringe aos taquígrafos, sendo uma técnica utilizada por exemplo por jornalista por ser um mecanismo eficiente no seu cotidiano profissional

         Pesquisas indicam que a taquigrafia remonta à Antiguidade Clássica (Grécia e Roma) e teve continuidade na Idade Média. Na era moderna, a técnica foi atualizada em 1776, na França, por Jean Coulon de Thévenot. No Brasil, fez a sua estreia na Constituinte do Império, em 1823. Na Câmara Municipal de Cuiabá, o primeiro momento em que encontramos algo a respeito de taquigrafia foi na sessão do dia 18 de junho de 1958, quando o vereador Jaime de Figueiredo parabenizou o taquígrafo Newton Alfredo de Aguiar pela passagem dos seus 35 anos. Mas e antes de 1958? Verifica-se nos livros guardados no Arquivo Geral da Câmara (iniciadas em 1888), que as anotações eram feitas pelo Secretário da Casa. No entanto, não é possível afirmar que isso constitui-se como regra, pois há diversas grafias em um mesmo livro, o que nos faz suspeitar que o Secretário poderia designar a tarefa à outra pessoa. Ressalta-se que atualmente cabe ao Secretário superintender o registro e a aprovação das atas das sessões (art. 41, VI, do Regimento Interno).

          Podemos entender que a taquigrafia na Câmara Municipal de Cuiabá tem as suas primeiras evidências no final da década de 1950, quando o ofício de taquígrafo cabia ao poeta e acadêmico literário Newton Alfredo de Aguiar. Não é possível determinar qual método de transcrição Aguiar utilizava. Sabemos, entretanto, que ele exerceu a função por aproximadamente duas décadas, passando a assessor de impressa em fins da década de 1970.

         Após um hiato de informações na década de 1980, o serviço ganhou novo fôlego em 1995 com a realização de um concurso público para cinco vagas de taquígrafo. Duas das aprovadas, Fabiana Orlandi e Cristiane Aparecida da Silva, compartilharam as suas memórias com a coluna. A servidora Fabiana Orlandi ingressou na Câmara antes mesmo do concurso, em março de 1990, como estagiária da antiga Escola Técnica Federal (ETF), com a tarefa de registrar as sessões ordinárias e as sessões que discutiam a Lei Orgânica do Município. Orlandi lembra que os taquígrafos anteriores tinham migrado para outros órgãos e coube a ela, e a três colegas, realizar a tarefa, sem qualquer supervisão técnica. Já Cristiane Aparecida da Silva ingressou no cargo de taquigrafa em 1997. Vinda do curso de Secretariado (ETF), dominava a Estenografia (técnica de escrita simbólica). Cristiane utilizou seus conhecimentos na área por 24 anos, enquanto esteve no setor de redação, e ainda preserva as suas cadernetas com a inscrição de letras e símbolos, que de acordo com ela, traduzia e transcrevia para os livros atas. Ambas utilizavam o método desenvolvido por Oscar Leite Alves, que consiste, de acordo com Orlandi, em registrar as palavras por símbolos derivados de um círculo. Para a aprovação na disciplina de Estenografia e para o concurso de 1995, disseram que era necessário demonstrar a capacidade de registrar ao menos 60 palavras por minuto, fazendo por isso o uso de concentração e velocidade.  

         Atualmente, a Câmara Municipal de Cuiabá conta com a Coordenadoria de Registro dos Debates Legislativos. A equipe é formada por três taquígrafos, servidores aprovados no concurso de 2011. Da mesma forma que os seus antecessores, eles acompanham e registram as inúmeras reuniões que são realizadas na instituição, enfrentando dificuldades diante de uma grande demanda. Em comum, todos têm o compromisso de registrar fielmente a memória do parlamento cuiabano e, consequentemente, a história da cidade. Pela dedicação em transformar o som da voz em documento, parabenizamos esses servidores pelo Dia Nacional do Taquígrafo, comemorado em 3 de maio.

            
 
Danilo Monlevade
Secretaria de Apoio à Cultura
memoria@camaracuiaba.mt.gov.br
 

Fontes de pesquisa:

Entrevista: Cristiane Aparecida da Silva em 22 de abril de 2025; Fabiana Orlandi em 28 de abril de 2025; Tatiane Correa Leite Borges Duarte em 30 de abril de 2025.

RAMALHO, Ana Cristina de Macêdo. A importância do registro taquigráfico para o processo legislativo. Brasília: Câmara dos Deputados, 2007.

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