O historiador Estevão de Mendonça registra na obra Datas Mato-Grossenses que, em novembro de 1907, a Câmara de Cuiabá aprovou um projeto de lei em homenagem ao militar Cândido Mariano da Silva Rondon – de autoria dos vereadores Manoel Antônio Pereira Borges e Amadeu Calhao. Havia uma rua no bairro da Boa Morte denominada Coronel Antônio Paes (Presidente da Província de Mato Grosso de 1903 a 1906). Antes disso, era conhecida como Rua da Boa Morte, a qual ligava a Avenida da Prainha à região da atual Praça Santos Dumont. Com a aprovação do projeto pela edilidade, a via passou a se denominar Cândido Mariano.
Na Exposição de Motivos para a alteração do nome da rua, Manoel Borges e Amadeu Calhao consideravam ser devida a homenagem por conta dos serviços prestados, de forma amorosa e dedicada, a Mato Grosso e, consequentemente, à sua capital. Mas quem era Cândido Rondon e o que ele realizava nos idos de 1907 para receber, ainda em vida, essa homenagem da Câmara de Cuiabá?
Nascido no dia 5 de maio de 1865, no distrito de Mimoso, município de Santo Antônio do Leverger, Cândido Mariano da Silva Rondon tinha 42 anos quando recebeu a homenagem dos edis cuiabanos. Já com esta idade, ele acumulava inúmeros feitos que justificariam o seu nome em um logradouro da capital. Nesse período, coube a Rondon um dos mais importantes propósitos para um Brasil que desejava unir os centros urbanos aos seus rincões. A comunicação deficitária precisava ser solucionada para que o país se integrasse, e Rondon assumiu a tarefa de instalação de extensas linhas telegráficas pelo interior do país.
A sua primeira experiência foi como 1º Ajudante do Major Gomes Carneiro, que comandou, em 1890-1891, a ligação telegráfica de Cuiabá até o oeste de Goiás (Araguaia). Ao fim desse empreendimento, o Mato Grosso pôde se comunicar eficientemente com o Rio de Janeiro, na época a capital da República. A comunicação entre as regiões, que demorava semanas, levaria minutos o uso do Código Morse. Um caso notório da precária comunicação até então entre Cuiabá e o Rio de Janeiro ocorreu na Proclamação da República. A notícia deste episódio histórico, ocorrido no dia 15 de novembro de 1889, chegou somente 30 dias depois, através de passageiros de um barco a vapor vindo da cidade de Corumbá.
A segunda expedição da qual participou foi chefiada por ele. Incumbiram a Rondon a tarefa de comandar a ligação telegráfica de Mato Grosso com o Paraguai e a Bolívia (1900-1906). Nesse período, já era conhecido como um grande sertanista e indigenista. Ele estendia fios condutores pelos sertões e estabelecia laços pacíficos e de cooperação com os indígenas – diferentemente das incursões genocidas de outros “desbravadores”. Sua comitiva mapeava e denominava a geografia da região, criava núcleos de povoamento, abria caminhos e catalogava espécies da fauna e da flora, além de amostras minerais.
Rondon recebeu o seu maior desafio em 1907. O Presidente da República, Afonso Pena, incumbiu ao mato-grossense a tarefa de conectar o país à região amazônica. O presidente deseja estabelecer a comunicação com aquela região, alcançando o recém-criado Território do Acre (1903). Por conta da sua reconhecida liderança, competência e fama, a intitulada Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas do Mato Grosso ao Amazonas ficaria conhecida como Comissão Rondon (1907-1915). Cesar Domingues afirma que um dos principais propósitos da Comissão era permitir uma maior presença do governo brasileiro no Acre e no Amazonas, onde se iniciavam a exploração da borracha e a construção da Ferrovia Madeira-Mamoré. Além disso, o governo federal desejava conhecer e regular a política regional a partir da eficiência da comunicação.
De volta à Exposição de Motivos apresentada pelos edis Manoel Borges e Amadeu Calhao, ambos acreditavam ser “insignificante aquela homenagem diante do imenso valor que tinha Rondon”, mas que aquilo seria um começo merecido ao ilustre conterrâneo. Essa “insignificante” homenagem dos edis cuiabanos seria, no entanto, pioneira no Brasil. À medida que conquistava outros feitos históricos que abrilhantavam a sua biografia, o futuro marechal colecionava homenagens. Selecionamos algumas: Distrito de Rondonópolis – MT, em 1918 (depois município); Distrito General Rondon – PR, em 1953 (depois município Marechal Cândido Rondon); Território (futuro Estado) de Rondônia (1956); indicação ao Prêmio Nobel da Paz (1957); e Patrono das Comunicações no Brasil (1963).
Atualmente, a Rua Cândido Mariano prolonga-se até a Estevão de Mendonça (curiosamente, aquele que registrou em sua obra a homenagem dos vereadores), no bairro do Quilombo, com cerca de 1.500 metros de percurso desde a Avenida da Prainha. Muitos conhecem ou, ao menos já ouviram falar no Marechal Rondon; no entanto, poucos sabem que a rua é uma referência a esse herói mato-grossense de fama internacional. Por isso, é necessário que busquemos dar publicidade à história de Cuiabá, e é isso que buscamos conquistar com a coluna Cultura e Memória do Legislativo Cuiabano, um projeto exitoso e consolidado da Secretaria de Apoio à Cultura da Câmara de Cuiabá.
Danilo Monlevade
Secretaria de Apoio à Cultura
memoria@camaracuiaba.mt.gov.br
Fontes de pesquisa:
DOMINGUES, Cesar Machado. A Comissão de Linhas Telegráficas do Mato Grosso ao Amazonas e a Integração do Noroeste. ANPUH, 2010.
MENDONÇA, Estevão de. Datas Mato-Grossenses. Niterói: Escola Typ. Salesiana, 1919.
SIQUEIRA, Elizabeth Madureira. História de Mato Grosso: Da ancestralidade aos dias atuais. Cuiabá: Entrelinhas, 2002.