45 anos da estação rodoviária: um dos símbolos de modernidade em Cuiabá na década de 1970

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Rodoviária de Cuiabá
Rodoviária de Cuiabá

Aqueles que eram moradores de Cuiabá e região em fevereiro de 1979 poderiam, desde então, realizar um passeio curioso nas tardes de domingo. Estava em construção uma nova estação rodoviária na capital mato-grossense, localizada no entroncamento da rua Marechal Deodoro com a avenida perimetral (Miguel Sutil). O Departamento de Estrada de Rodagem (DER) decidira autorizar o público a visitar o canteiro de obras da futura estação aos domingos, mas somente no período vespertino. A intenção era apresentar à população, em um passeio guiado, aquele que era considerado o mais moderno empreendimento já edificado em Cuiabá. A estação seria a concretização de um sonho para os cuiabanos, que se envergonhavam da ultrapassada rodoviária da rua Miranda Reis. Além disso, a “cidade irmã’ Campo Grande já tinha a sua, inaugurada dois anos antes, que era tida como a mais moderna do oeste brasileiro. O envolvimento dos vereadores na construção de uma nova estação deu-se de forma limitada, tendo em vista que a obra tornou-se de responsabilidade do governo estadual. No entanto, a indignação popular com a pequena rodoviária e a busca por uma solução tornaram-se evidentes nos debates legislativos registrados nas sessões e periódicos, como veremos neste artigo.

         Inicialmente, é necessário visitar a década de 1940 para perceber o processo de avanço do transporte rodoviário em Cuiabá. Na edição comemorativa de 8 de abril de 1941, o jornal O Estado de Mato Grosso trazia dados do Departamento Estadual de Estatísticas a respeito do desembarque de passageiros em Cuiabá no ano anterior (1940), e na mesma página, havia a propaganda de uma empresa de transporte rodoviário de passageiros. A empresa Norte-Sul oferecia uma só partida por semana para a cidade de Campo Grande. Essa única saída semanal pode ser justificada pela demanda entre as cidades e as péssimas condições dos caminhos por terra. A matéria jornalística afirma, que no ano de 1940, somente 388 pessoas teriam desembarcado em Cuiabá a bordo de ônibus pelo caminho de Campo Grande. Já por aviões e barcos, chegaram 411 e 1.916 pessoas, respectivamente, nesse mesmo ano. Repare que quanto aos ônibus, trata-se somente do caminho Cuiabá – Campo Grande, ignorando outros, diferente do aéreo e fluvial. De toda forma, demonstra-se que o transporte por ônibus era quase insignificante nesse período, fruto da baixa demanda, da péssima qualidade dos caminhos – estradas de terras – e de outras alternativas. Assistiu-se na década de 1950 certo aumento, mas diminuto, prova disso a propaganda da Viação Mato Grosso, oferecendo três partidas semanais pela estrada de Campo Grande. Já entre as décadas de 1960 e 1970, Cuiabá tornou-se o que denominaram de “Portal da Amazônia”. A nova política de ocupação fez com que milhares de migrantes chegassem ao norte de Mato Grosso, e a capital passou a exercer o papel de ponto de apoio e conexão desse grande empreendimento nacional do governo militar. Para se ter uma ideia do impacto desse fluxo migratório, dados informam que Cuiabá chegou a 104 mil habitantes no ano de 1970. Em virtude desse crescimento,  os irmãos Filogônio e Braulio Teodoro Ribeiro resolveram, com recursos particulares, instalar um pequeno terminal rodoviário nos fundos do Hotel Alvorada, de propriedade da família, por volta de 1968. No começo partiam diariamente quatro ônibus do local, aumentando paulatinamente, chegando a um esgotamento em 1979, quando já eram 96 partidas diárias. De acordo com dados da Prefeitura Municipal de Cuiabá, nos anos de 1976, 1977 e 1978, desembarcaram, respectivamente, 523 mil, 595 mil e 641 mil passageiros nesse terminal. Portanto, o projeto dos irmãos Ribeiro ficou insuficiente para esse novo novo fluxo de ônibus. Foi diante dessa situação que a Câmara Municipal de Cuiabá passou a manifestar o seu descontentamento e exigir da Prefeitura Municipal e do Governo do Estado a construção de uma rodoviária.

          Na edição de 18 de junho de 1972, o jornal O Estado de Mato Grosso noticiava, que no dia seguinte, o vereador Evaldo de Barros faria um discurso em plenário para atestar que Cuiabá necessitava urgentemente de uma nova estação rodoviária, visto que aquela da rua Miranda Reis não comportava o crescente fluxo, que era mal localizada e desconfortável para os passageiros. De acordo com o edil, caberia à Prefeitura Municipal de Cuiabá tomar as providências. Verificamos na sessão do dia 25 de outubro a aprovação de um parecer favorável da Comissão de Justiça, Economia e Finanças quanto ao projeto de lei nº 96/72, de autoria de Evaldo de Barros, a fim de autorizar o Executivo a desapropriar uma área para a construção de uma nova estação rodoviária em Cuiabá. O projeto foi aprovado pelos vereadores e levado à sanção pelo Prefeito José Villanova Torres. No entanto, a iniciativa do autor do projeto não se consolidou. Coube mais tarde, ao governo estadual, a tarefa de definir o atual local e a construção.

         É possível acompanhar o histórico de construção da nova estação por meio das edições do jornal O Estado de Mato Grosso. Nas edições do ano de 1973, ele destaca a caótica situação da estação da rua Miranda Reis e a necessidade de construção de uma nova, por conta do avanço migratório e o papel ímpar que a capital protagonizava na ocupação da Amazônia. Cuiabá era geograficamente estratégica ao conectar três grandes rodovias do país: BR 163, BR 070 e BR 364, que estavam em um período de abertura, expansão e asfaltamento. A Câmara de Cuiabá aparece novamente na edição do dia 17 de fevereiro de 1973, registrando a intransigente atuação do já ex-vereador Evaldo de Barros na defesa de um novo terminal.

No ano seguinte (1974), o jornal noticia a atuação dos parlamentares Benedito Alves Ferraz e Lino Miranda. Ferraz dissera em entrevista que o governador José Fragelli (1971-1975) havia escolhido a área e iria buscar a sua desapropriação. Após isso, seria aberta uma concorrência pública e que um anteprojeto já estava na Secretaria de Viação e Obras Públicas do Estado. Por sua vez, Lino Mirada solicitou que a Prefeitura de Cuiabá e o DERMAT providenciassem uma vistoria e o fechamento do terminal rodoviário da Miranda Reis, pois ela não oferecia as mínimas condições de funcionamento. No ano de 1975 restaram o descontentamento com a rodoviária da cidade – vista como o pior cartão postal de Cuiabá – e promessas vagas do governo estadual, que anunciava o estudo de uma área entre a avenida Miguel Sutil e a avenida do CPA. 

        No ano de 1976, já na administração do governador José Garcia Neto (1975-1978), surgiram boas notícias. O governador havia criado um grupo de trabalho no mês de janeiro para a escolha de um local e a produção de um projeto arquitetônico sob responsabilidade dos arquitetos Gustavo Arruda e Moacyr de Freitas. Garcia Neto, enquanto deputado federal (1967-1975), foi um dos maiores defensores da construção de uma nova rodoviária em Cuiabá. No dia 10 de março, o jornal publicou a fotografia do local escolhido pela comissão, localizado no bairro Quarta-feira, e em dezembro, noticiava a assinatura de um contrato de financiamento e cooperação técnica.

Os anos de 1977 e 1978 foram períodos de desapropriação da área, realocação dos desapropriados e o início da construção, com previsão inicial de inauguração para o mês de julho de 1978. A previsão foi posteriormente revista para dezembro desse ano, depois para março, em seguida para julho e, finalmente, para dezembro de 1979. O terminal, que já era visto como o mais moderno da América Latina, atenderia 90 mil passageiros por mês e causava entusiasmo na população. Surgiu ainda a discussão do seu futuro nome, que de acordo com Lenine Póvoas, deveria seguir a “um plano alto para que se compatibilizasse com a magnitude do empreendimento”. Póvoas acreditava que deveria-se realizar um concurso, e o vencedor contemplado com 10 mil cruzeiros. Não encontramos notícias sobre a realização de um concurso.    

A nova estação rodoviária já estava pronta em novembro de 1979, quando foi marcada para o dia 10 de dezembro a sua inauguração oficial. Coube ao Governador Frederico Campos (1979-1983), que acompanhou de perto as obras quando foi Secretário de Viação e Obras Públicas, a honra de descerrar a placa de inauguração. Ao seu lado, estavam seus antecessores os ex-governadores Garcia Neto e Cássio Leite de Barros (1978-1979), que manifestaram a alegria de participarem da consolidação daquele grande projeto. Na edição do O Estado de Mato Grosso, no dia seguinte à inauguração, o governo estadual publicou uma matéria com o título “O Brasil ganhou um novo ponto de encontro”. Nela, afirmava-se que o imóvel tinha 28 mil metros quadrados de área construída, 16 plataformas de embarque e 10 de desembarque. Edificada com quatro pavimentos, ela contaria com serviços para atender confortavelmente os passageiros. Daquele dia em diante “suas emoções terão um novo palco para acontecer, no mais novo ponto de encontro do Brasil”.

         A construção de uma nova rodoviária acompanhou a onda de progresso e modernização da região amazônica, a partir do lema “Integrar para não entregar”, e Cuiabá estava inserida nesse projeto federal. Modernizar, lembra Carlos Souza, é ser moderno, é romper com o rural e o arcaico, onde valoriza-se o natural sendo transformado pelo homem. Lembremos que além dessa obra, tiveram outros grandes empreendimentos nesse período, em Cuiabá: Universidade Federal de Mato Grosso (1970); Centro Político Administrativo (1975); e o Estádio José Fragelli (1976), com capacidade de abrigar 1/3 moradores da cidade. Todos eles construídos com recursos federais que anteviam a necessidade de investimentos na região norte de Mato Grosso, que seria legalmente dividida em 1977 com a criação de um novo estado na parte sul. A construção da “faraônica” rodoviária como um símbolo de modernidade contrastava com uma outra realidade. Na sessão legislativa do dia 13 de dezembro de 1979 -  a última do ano e três dias após a inauguração – o vereador Benedito Pinheiro discorreu sobre o que julgava ser um grande problema gerado pelo alto fluxo migratório assistido naquela década, que era a favelização em Cuiabá. Da mesma forma, o vereador Ovídio Fernandes desejou que no ano seguinte o poder público se empenhasse em combater as tensões sociais e a violência que assolava a cidade. Visto isso, é perceptível que em meio ao progresso e modernização da capital, os investimentos sociais teriam sido desproporcionais.


Danilo Monlevade
Secretaria de Apoio à Cultura
memoria@camaracuiaba.mt.gov.br


Fontes de pesquisa:

Jornal O Estado de Mato Grosso: 1941, 1959, 1972 a 1979.

Prefeitura Municipal de Cuiabá. Instituto de Planejamento e Desenvolvimento Urbano (IPDU). Diretoria de Pesquisa e Informação. Perfil Socioeconômico de Cuiabá – Volume III – Cuiabá-MT: Central de Texto, 2007.

___________. Anuário Estatístico de Cuiabá – 1978.

Site: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/1287#resultado

SOUZA, Carlos Alexandre da Silva. Discursos sobre progresso e modernização no jornal O Estado de Mato Grosso 1970/1971. Cuiabá: Revista Outras Fronteiras, UFMT, 2015.

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