Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada pelo IBGE no final de 2023, e divulgada em agosto de 2024, verificou-se que o número de domicílios com aparelho de televisão no Brasil tem diminuído. Os pesquisadores perceberam que o principal motivo seria a opção por outros dispositivos de acesso à informação e ao entretenimento – smartphone, tablet e computador. Mesmo com essa redução, 94,3% dos lares brasileiros possuem pelo menos um televisor, número que consideramos bastante significativo, permitindo concluir que a TV continua sendo um dos protagonistas no cotidiano das famílias brasileiras. A respeito dessa situação na cidade de Cuiabá, não encontramos dados próprios, mas acreditamos que não difira do panorama nacional. Nosso propósito neste artigo – como espaço de cultura e memória da cidade – é apresentar a instalação da TV na capital e a participação dos vereadores nesse processo.
Uma das pesquisas mais completas acerca da instalação da TV em Cuiabá foi feita por Adriana Azevedo Paes de Barros que resultou na obra Da televisão no Brasil ao televizinho em Cuiabá. A autora relata que tudo ocorreu em um cenário de transformação regional iniciado na década de 1960. Nesse período, recursos públicos federais foram direcionados para a ocupação da região amazônica e central do Brasil, em um grande projeto de integração nacional do qual Cuiabá fez parte. Uma onda migratória fez a capital saltar de 27.306 habitantes, em 1950, para 45.875, em 1960; com esses imigrantes, veio o discurso da modernidade como via de melhoria da vida da população local. Um exemplo marcante desse movimento de romper o antiquado e instituir o moderno foi a demolição da Catedral Metropolitana, em 1968, um templo construído no início do povoamento, no ano de 1722. Cinco anos depois foi inaugurado um novo prédio, de arquitetura moderna e espaço mais amplo.
O capital privado aproveitou o momento de expansão para investir e lucrar, e a televisão tornou-se um dos instrumentos mais utilizados para auxiliar as empresas na venda de produtos por meio da propaganda. O grupo econômico dos Irmãos Zahran surgiu como precursor na implantação da TV em Mato Grosso. Segundo Adriana de Barros, o empresário Ueze Zahran viajou ao Rio de Janeiro em dezembro de 1963 para contratar a jornalista Antonieta Ries Coelho, uma profunda conhecedora das telecomunicações, para que ela providenciasse a instalação de uma TV na cidade de Campo Grande. Antonieta, entretanto, sugeriu que Corumbá e Cuiabá também fossem contempladas, proposta que foi atendida pelos empresários.
Para a instalação de uma emissora naquela época, o Conselho Nacional de Telecomunicações (CONTEL) exigia uma população expressiva e a comercialização de pelo menos 1.500 aparelhos. Ainda em dezembro de 1965, a TV Morena foi implantada em Campo Grande. Coube à senhora Antonieta o desafio de instalação da TV Centro América na capital do estado. A fim de explanar sobre a implantação na capital, Antonieta foi convidada para uma Sessão Especial na Câmara Municipal de Cuiabá no dia 23 de maio de 1966, requerida pelo vereador Benedito Pedro Dorilêo, do Partido Social Democrático (PSD).
Reunidos com os vereadores nessa sessão, estavam representantes do comércio e associações de classe, o prefeito de Cuiabá, Emílio Vicente Vuolo, e o vice-governador de Mato Grosso, José Garcia Neto. No posto de requerente, Dorilêo deu as boas-vindas aos presentes e, em sua fala, evocou a onda de progresso que chegava à capital. Afirmou que, embora o cuiabano fosse desconfiado, estava de peito aberto para o futuro, e a televisão era, naquele momento um símbolo de progresso. No final do discurso, ele colocou a edilidade à disposição dos empreendedores “para o progresso de Cuiabá”.
Ao tomar a palavra, Antonieta Ries agradeceu o convite e disse que estava disposta a esclarecer tudo a respeito do projeto dos Irmãos Zahran. Relatou que o grupo enfrentou diversas dificuldades para a instalação da TV Morena em Campo Grande em virtude da não aquisição de aparelhos por parte dos moradores, mas que mesmo assim, não desistiram do projeto. A desconfiança deu lugar ao entusiasmo no momento em que os campo-grandenses viram as primeiras imagens nos televisores. Ela disse que acreditava que aquela experiência daria agilidade à instalação em Cuiabá. Para tanto, a empresa necessitava de um terreno em um local alto e de uma campanha do comércio e dos agentes públicos para a venda de aparelhos da própria emissora – na época disponíveis para pagamento em até vinte parcelas. Ela esperava que a TV fosse inaugurada na capital em um prazo de 15 a 18 meses. Justificou o fato de Cuiabá não ter sido a pioneira no estado por conta de questões climáticas e de disponibilidade de energia elétrica estável e de carga suficiente.
Em seguida, foi aberta a palavra aos presentes. O prefeito Vicente Vuolo e a vereadora Ana Maria do Couto, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) foram os primeiros. Os dois indagaram a respeito do terreno que a empresa necessitava para a instalação da sua sede e a antena de transmissão. Em sua resposta, ela descreveu o terreno ideal: uma área nas proximidades do Hospital Santa Helena, já autorizado pelo CONTEL. Ressaltou que havia um requerimento de doação ao município e ela estaria aguardando o retorno. Outras autoridades pediram detalhes sobre a venda de aparelhos, da experiência em Campo Grande, a contratação de pessoal, os prazos, a qualidade do sinal e a sua abrangência, além da programação, do capital que seria investido pela empresa e o que esperavam lucrar, o que fora prontamente respondido pela convidada. Percebe-se que o objetivo de Antonieta na sessão foi de, principalmente, buscar o apoio político para a doação de um terreno. Já para os representantes dos comerciantes e associações, o empenho para a venda de pelo menos 1.500 aparelhos.
A partir das visitas da senhora Antonieta e sua posterior transferência, foi realizada uma intensiva campanha da população cuiabana para que os demais adquirissem os televisores. Havia o desejo dos entusiastas em ter brevemente aquele símbolo de modernidade em Cuiabá. O jornal O Estado de Mato Grosso fez campanha em prol da aquisição de aparelhos: “TV Centro América – Canal 4. Televisão, incomparável veículo de instrução, cultura e informação será em breve uma grande realidade em Cuiabá. Torne mais breve essa realidade fazendo AGORA seu compromisso para aquisição de um televisor com qualquer dos corretores autorizados da TV Centro América”. Cuiabá vivia assim a onda ideológica do progresso, e a TV fazia parte. Por outro lado, o poeta Moisés Martins – que inclusive adquiriu um televisor naquele período – diz que a instalação da TV transformou o cotidiano dos moradores, deixando de lado os passeios nas praças e a ida ao cinema e ao teatro, para acompanharem em seus lares – ou dos vizinhos – a cultura nacional e internacional, “quase que hipnotizados diante da TV em preto e branco”. Entretanto, vale destacar que a TV Centro América dedicou, desde o início, espaços para a produção de uma programação local, que valorizava a cultura regional.
A TV Centro América foi inaugurada oficialmente e definitivamente em 13 de fevereiro de 1969, após testes iniciados em novembro de 1967. O sucesso deveu-se principalmente por conta do árduo trabalho da senhora Antonieta Ries Coelho, ao investimento dos Irmãos Zahran e ao engajamento dos cuiabanos, que em virtude da expressiva venda de aparelhos, possibilitou a compra do terreno, a construção da sede da emissora, da sua torre e a aquisição dos aparelhos técnicos de produção de conteúdo e transmissão. A TV Centro América foi a 38ª emissora no Brasil e a 2ª em Mato Grosso, filiando-se à Rede Globo em 1975. Em reconhecimento aos esforços desses pioneiros, a Câmara Municipal de Cuiabá concedeu a Antonieta e Ueze Zahran o título de cidadania cuiabana em uma Sessão Especial realizada em 15 de fevereiro de 1969.
Danilo Monlevade
Secretaria de Apoio à Cultura
memoria@camaracuiaba.mt.gov.br
Fontes de pesquisa:
BARROS, Adriana Azevedo Paes de. Da televisão no Brasil ao televizinho em Cuiabá: aspectos históricos e a influência na Cuiabá dos anos 70. Cuiabá: Editora Stúdio Press & Multicor Editores, 1997.
Site: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-08/presenca-de-tv-diminui-e-421-dos-lares-com-televisao-tem-streaming
Jornal O Estado de Mato Grosso, ed. 4.679, 4.704, 4.773, 5.409, 5.419, 5.458, 5.475 e 5.642.
Livros Atas nº 13 e nº 21 – Arquivo Geral da Câmara Municipal de Cuiabá.
MARTINS JUNIOR, Moisés Mendes. Revendo e Reciclando a Cultura Cuiabana. Cuiabá: Editora do Autor, 2000.
MUNIZ, Ana Elise & PEREIRA, Glaziela Vasconcelos. TV Centro América: uma história em fragmentos. Cuiabá: UFMT, 2005.
SOTANA, Edvaldo Correa. Integração nacional por antenas de TV e a transmissão do Jornal Nacional para Cuiabá-MT (1976). Nº 26, Volume 14. Domínios da Imagem, 2020.