Os vereadores de Cuiabá se reuniram em Sessão Ordinária no dia 19 de maio de 1978 para debater projetos, tratar de assuntos pertinentes ao município e, além disso, repercutir a polêmica indicação do deputado federal Gastão de Matos Müller para o cargo de senador da República nos oito anos seguintes (1979-1986). Isso mesmo: indicação, e não eleição – um reflexo de medidas que faziam parte do denominado “Pacote de Abril” (Emenda Constitucional nº 8), apresentado pelo presidente da República Ernesto Geisel (1974-1979) já no período de “derrocada” do regime militar.
Geisel assumiu a presidência em 15 de março de 1974 e, diferentemente do antecessor, não pertencia à denominada “linda-dura” do regime autoritário em vigor. O novo presidente prometia uma “abertura política”, em vista de reinstalar a democracia no país, interrompida em 1964. O governo federal propunha uma distensão “lenta, gradual e segura”. Essa tal lentidão, gradação e segurança significavam na verdade, que o processo de redemocratização seria conduzido exclusivamente pelos militares e seus pares civis. Ocorre que o protagonismo nesse processo descambava, naquele momento, para os oposicionistas, representados principalmente pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB).
A historiadora Marly Motta diz que o governo estava preocupado com o avanço eleitoral do MDB, em especial no Senado, já que, nas eleições de 1974, o partido oposicionista havia conquistado 16 das 22 vagas em disputa e se apresentava como um grande favorito para as eleições de 1978. A provável maioria do MDB significaria o impedimento às reformas constitucionais – como a revogação da lei que restabelecia eleições diretas para governadores. Diante desse cenário negativo, o presidente Geisel fechou o Congresso Nacional no dia 1º de abril de 1977 e apresentou uma série de reformas constitucionais com respaldo no Ato Adicional nº 5 (AI-5). Dentre elas, estava a eleição indireta de um terço dos senadores, pela qual Geisel procurava garantir uma maioria governista no Senado. O conjunto dessas medidas ficou conhecido como “Pacote de Abril”, e os novos senadores seriam denominados, pejorativamente, como “Senadores Biônicos” – alusão a um personagem da série de TV americana O Homem de Seis Milhões de Dólares.
A 10ª Legislatura da Câmara Municipal de Cuiabá era composta por 15 vereadores, sendo onze arenistas e quatro emedebistas. Naquela sessão, o vereador Giunchiglio Luigi Bello, da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), “expressou a sua alegra em saber que um grande amigo seu fora escolhido para Senador Biônico por Mato Grosso”. Outra representante da ARENA, a vereadora Maria Nazareth Hahn, falou do seu contentamento com a indicação, afirmando que Gastão Müller era “atencioso, ama este norte querido e será para nós, no Senado, o que fora como Deputado Federal – esses dois vereadores representaram a Câmara de Cuiabá no Colégio Eleitoral que escolheu Gastão Müller. Por outro lado, o também arenista Ovídio Fernandes manifestou-se contrário à eleição indireta de senadores. O vereador disse que, “se perguntassem a algum democrata quais são as suas aspirações políticas, obteriam sempre a mesma resposta: eleições diretas, liberdade de imprensa, respeito à coisa pública, respeito aos direitos humanos e independência dos poderes constituídos”. Continuando em seu discurso, afirmou que sempre esteve na “trincheira democrática”. Asseverava que os candidatos deveriam ser livremente escolhidos pelo povo, mas não descredenciava a pessoa de Gastão Müller para o cargo.
A contrariedade aos senadores indicados ganhou reforço no posicionamento do vereador emedebista Gilson de Barros. Em seu pronunciamento a respeito do caso, disse inicialmente que, mesmo fazendo parte da oposição, ele não deixava de reconhecer as qualidades de Gastão Müller, mas a figura dos senadores indicados lhe causava revolta, os quais denominou de “senadores de proveta”. Para registrar nos anais da Casa a sua revolta, requereu que fosse inserido na ata da sessão o artigo publicado no jornal Equipe dias antes, sob o título “Sinal de Cansaço. Sem indicar o autor – possivelmente o próprio Gilson de Barros –, afirma-se em seu conteúdo que as pessoas eram “contra a alienação, a privação do direito de participar”. Haveria, principalmente nos segmentos mais esclarecidos e politizados, um sinal evidente de cansaço. Afirmou que o povo estaria revoltado por não participar da escolha de seus representantes e que a continuação daquele modelo poderia conduzir a resultados piores que a violência, os quais seriam a “formação de gerações despersonalizadas, sem vontade própria, abúlicas e apáticas, que degradariam a nacionalidade”. Alertava que os próprios líderes da ARENA estavam alheios às decisões dos poderosos, e desejava que um dia a população participasse do processo, surgindo “líderes autênticos” que dignificassem a classe civil brasileira.
E o novo senador Gastão Müller? O historiador Vinícius de Carvalho registra que a escolha de Gastão advinha em parte por sua família, que teve como expoentes o seu pai Fenelon Müller e os seus tios Júlio e Filinto Müller; e por conta do seu bom trânsito entre os militares. Antes ainda de ser eleito indiretamente pelo Colégio Eleitoral em 1º de setembro de 1978 – todos os deputados estaduais e um delegado de cada câmara municipal do estado –, disse em entrevista que desejava eleições diretas, mas não via o atual processo como antidemocrático. Ele assumiu o cargo de senador em fevereiro de 1979 e logo em seguida passou a questionar o modelo que o conduziu. Gastão foi líder do movimento que propunha a revogação do direito de escolha dos prefeitos das capitais pelos governadores, e lutou pelo fim do bipartidarismo, por julgá-lo pouco representativo.
Percebeu-se que aos poucos ele se distanciava dos ditames do governo militar. Gastão coordenou o movimento dos “não alinhados”, grupo que defendia a autonomia partidária. Criticou o posicionamento contrário do presidente João Figueiredo (1979-1985) às eleições diretas para presidência da República. Com o fim do bipartidarismo em novembro de 1979, ele se filiou ao Partido Popular (PP) e, em fevereiro de 1982, ingressou no Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) – curiosamente, a base dos políticos de oposição ao governo militar. Ainda buscou uma das duas vagas para o Senado nas eleições de 15 de novembro de 1986, mas ficou atrás dos correligionários Mário Lacerda e Nunes Rocha. Faleceu em 7 de maio de 1996.
Ao analisarmos a história da Câmara de Cuiabá desde as vésperas do Golpe de 1964 e durante o regime militar (1964-1985), percebe-se um processo de crença, descrença e rejeição ao sistema implantado. É evidente que cada vereador teve o seu tempo nesse processo, mas, ao final, entenderam a necessidade da hegemonia democrática; diante do que expusemos, sentimos que esse mesmo “fenômeno” foi vivido por Gastão Müller em sua vida pública.
Danilo Monlevade
Secretaria de Apoio à Cultura
memoria@camaracuiaba.mt.gov.br
Fontes de pesquisa:
ARAÚJO, Vinícius de Carvalho. Paz sob fogo cerrado (1945 - 2002). Cuiabá: EdUFMT, 2020.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 2ª ed. São Paulo: Edusp, 2002.
Jornal O Estado de Mato Grosso, ed. 7.938 e.7.880.
Livro Ata nº 151 – Arquivo Geral da Câmara Municipal de Cuiabá.
Site: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/gastao-de-matos-muller