A Câmara Municipal de Cuiabá realizou uma campanha de arrecadação de donativos e os enviou para o estado do Rio Grande do Sul no último dia 16 de maio. Foram enviadas aproximadamente duas toneladas de donativos, entre alimentos e peças de vestuário, que se juntarão aos demais donativos enviados de todos os cantos do Brasil para as vítimas da enchente que castiga, há semanas, o extremo sul do país. As cenas dessa tragédia são reproduzidas diariamente, mas da mesma maneira, acompanhamos inúmeros gestos de solidariedade, como esse promovido pelo parlamento cuiabano.
É comum acompanharmos tragédias resultantes de fenômenos naturais intensos e inesperados, e temos um grande exemplo disso na história de Cuiabá. Em março deste ano (2024), completaram-se 50 anos de uma das maiores tragédias naturais em Cuiabá: a enchente de 1974. Esse episódio foi amplamente relembrado este ano por conta do seu aniversário de meio século. No mês de março daquele ano, intensificaram as chuvas na cabeceira do rio Cuiabá e de seus afluentes. Na capital, os bairros do Terceiro, Barcelos e Várzea Ana Poupino foram os mais atingidos, ficando cobertos pelas águas, o que deixou milhares de pessoas desabrigadas e desabastecidas. O objetivo deste artigo não é priorizar a tragédia e o sofrimento das famílias que perderam suas casas e pertences em 1974, mas apresentar o movimento de solidariedade da população local e de outras cidades, bem como o empenho da Câmara Municipal de Cuiabá no atendimento aos flagelados.
Ainda no dia 13 de março de 1974, quando as águas do rio se aproximavam do nível da ponte Júlio Müller (Ponte Velha), o vereador Mário Márcio (MDB) apresentou um requerimento ao Secretário de Recursos Humanos da Prefeitura de Cuiabá – na época sob a gestão de José Villanova Torres – indagando-o se haveria um programa de emergência para o atendimento aos “possíveis flagelados”. O que inicialmente era uma possibilidade tornou-se realidade dois dias depois, com o seu ápice em 18 de março, quando o nível do rio atingiu 10,87 metros, conforme informado pela Capitania dos Portos.
Na Câmara de Cuiabá, os parlamentares se reuniram em Sessão Ordinária para discutir a calamidade instalada na cidade, e prontamente, buscaram atender a população desabrigada. O vereador Wilson Diniz, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), agradeceu à imprensa, que se dedicava não só a noticiar, mas a orientar a população. Antevendo que os moradores não voltariam para as suas casas (em sua maioria de adobe), Diniz sugeria que a Companhia de Habitação de Mato Grosso planejasse com urgência a construção de novas moradias. Nessa sessão, surgiu uma proposta de Mário Márcio (MDB): a instalação no prédio da Câmara (sede na Praça Alencastro) de um posto de atendimento aos flagelados que funcionaria diuturnamente com o apoio dos vereadores e funcionários. A sugestão foi atendida por unanimidade.
O entrevistado da coluna Cultura e Memória do Legislativo Cuiabano foi o ex-vereador João da Silva Torres, que viveu a tragédia de 1974, sendo inclusive uma das vítimas, já que a casa da sua família foi alagada no bairro do Porto, alcançando um metro de altura. Torres afirma que todos os vereadores se uniram naquela tragédia, independente de filiação partidária, para auxiliar os desabrigados e contribuir com o poder público. Muito embora o projeto de tornar a Câmara um centro de apoio não tenha se efetivado devido à sua infraestrutura acanhada, eles uniram-se movidos pelo sentimento de cuiabania. No período posterior à tragédia, os vereadores estiveram ao lado dos desabrigados na construção de seus lares, cobrando ações efetivas do poderes Executivo municipal e estadual.
À medida em que as águas do rio subiam e as casas alagavam, a solidariedade do povo cuiabano emergia. Dois postos principais de arrecadação de donativos foram instalados na cidade: Mercado do Porto e Escola Modelo Barão de Melgaço. Ao mesmo tempo, voluntários se apresentavam para auxiliar no socorro, juntando-se ao trabalho dos militares. Tal dedicação é confirmada na sessão do dia 20 de março, quando o edil Roberto França Auad, da Aliança Nacional Renovadora (ARENA), apresenta “considerações a respeito do lamentável acontecimento ocorrido na capital do Estado e cidades circunvizinhas, com o desamparo de 3.000 a 3.200 famílias, face ao transbordamento das águas do rio Cuiabá”. O parlamentar agradeceu ao povo cuiabano a solidariedade humana dispensada aos flagelados, quando “todos se manifestaram e se uniram, forçando uma corrente positiva para aliviar o sofrimento do seu irmão, naquela hora tão dramática”.
A exemplo da campanha nacional de envio de donativos que assistimos em 2025 para o Estado Rio Grande do Sul, duas cidades mobilizaram seus moradores para angariar e enviar donativos aos cuiabanos: Campo Grande e Dourados. O vereador Francisco Miranda (MDB) salientou na sessão de 20 de março o auxílio e a solidariedade dos campo-grandenses. Roberto França (MDB) pediu aos pares que a edilidade cuiabana enviasse uma Moção de Aplausos ao prefeito de Campo Grande, Levy Dias, como um reconhecimento pela sua atitude também humanitária junto às autoridades, ao comércio e ao povo da cidade, que se solidarizou com os cuiabanos, promovendo uma grande campanha em seu benefício, com a doação de alimentos, roupas e medicamentos. O correspondente do jornal O Estado de Mato Grosso em Campo Grande informava que a população, o comércio e associações daquele município mobilizaram; que caminhões saiam às ruas pedindo donativos que eram, por fim, enviados para Cuiabá em aviões da Força Aérea. Da mesma forma, a população de Dourados participou da campanha de auxílio às vítima da enchente. O vereador Benedito Alves Ferraz (ARENA), nessa mesma sessão, pediu aos pares que fosse enviada ao prefeito municipal de Dourados uma outra Moção de Aplausos, pois a Prefeitura do município patrocinou o enviou de quatro veículos com víveres e medicamentos para o atendimento aos flagelados.
Esses gestos de solidariedade, de ontem e hoje, continuam sendo necessários, pois infelizmente os desastres naturais têm se avolumado – muitas vezes em decorrência do descaso humano com o meio ambiente que o sustenta. Devemos sempre, e cada vez mais, como evoca a canção Heal The World, de Michael Jackson: “continuar enxugando o pranto dos homens, se fazendo irmão, estendendo a mão, e acender a chama da vida, para fazer a Terra inteira feliz”.
Danilo Monlevade
Secretaria de Apoio à Cultura
memoria@camaracuiaba.mt.gov.br
Fontes de pesquisa:
Entrevista com João da Silva Torres em 24 de maio de 2024
Jornal O Estado de Mato Grosso, março e abril de 1974.
Livro Ata nº 23 – Arquivo Geral da Câmara Municipal de Cuiabá.