A Câmara Municipal de Cuiabá é organizada sob o regime presidencialista, a exemplo de diversas instituições públicas e privadas do país. No caso do parlamento cuiabano, o presidente é o principal responsável e seu representante oficial, dentro e fora da instituição. Eleito pelos seus pares, ele possui inúmeras atribuições dispostas no Regimento Interno. No texto atual, as suas atribuições estão descritas em 64 alíneas, distribuídas nos 8 incisos do artigo 36, além de outras esparsas pelo documento.
Considerando essa grande quantidade de atribuições e a relevante responsabilidade, há a tradição de se instalar nas instituições uma galeria com as fotografias de seus ex-presidentes, a fim de homenageá-los — costume que também se aplica à Câmara Municipal de Cuiabá. O espaço fica localizado na recepção de sua sede e reúne os retratos de 43 ex-mandatários, dispostos em ordem cronológica. Todas as imagens são em preto e branco, mantendo a tradição estabelecida mesmo após o advento das impressões coloridas.
No início da atual gestão (2025-2026), constatou-se a necessidade de renovar essa galeria, cuja reinauguração ocorrerá no próximo dia 1º de outubro, data em que se comemora o Dia do Vereador. As principais medidas adotadas recaíram sobre os aspectos técnicos e visuais. No âmbito técnico, corrigiram-se nomes e datas, estabelecendo, dentro do possível, o dia, o mês e o ano em que cada parlamentar exerceu a presidência — o detalhamento completo só não foi possível devido à escassez de fontes históricas fidedignas. No aspecto visual, todos os quadros foram restaurados e as fotografias, aprimoradas digitalmente. Destaca-se, em especial, o retrato do ex-presidente João Barbosa Caramurú: na imagem original, ele era o único a não trajar terno, vestimenta que lhe foi inserida por meio da tecnologia, conferindo maior solenidade à sua imagem.
É importante apresentar um breve panorama sobre alguns dos ex-presidentes que integram esse acervo. Muito embora a Câmara de Cuiabá possua quase 300 anos de história, o período retratado na galeria inicia-se em 1947. Antes desse marco, aparentemente não houve a preocupação de registrar e preservar — fosse por meio de desenho ou fotografia — o rosto dos mandatários. Ao todo, são 43 ex-presidentes no período de 1947 a 2024, sendo 41 homens e apenas duas mulheres: Ana Maria do Couto (1965) e Francisca Emília Santana Nunes (2005–2006).
A duração do mandato presidencial passou por alterações ao longo do tempo. Até a década de 1960, a gestão era de um ano; posteriormente, o período foi ampliado para dois anos. O tempo total de permanência na presidência também varia de acordo com o número de reconduções do parlamentar. Há, ainda, casos em que o período regimental não foi concluído devido à assunção de outro cargo, impedimento ou falecimento. Os parlamentares que exerceram a presidência por mais tempo foram Joaquim Lobo Duarte e Júlio César Pinheiro, com três mandatos cada, seguidos por Severiano Benedito de Almeida, Benedito Alves Ferraz, Roberto França Auad e Luiz Marinho de Souza, com dois mandatos. Contudo, é imprudente afirmar qual deles lidera esse histórico, devido à ausência de atas oficiais sobre a terceira gestão de Joaquim Lobo Duarte. É possível constatar, apenas, que Júlio César Pinheiro e Luiz Marinho dividem com ele o topo desse ranking. Por outro lado, o mandato mais curto foi o de Valdevino Ferreira de Amorim, que permaneceu no cargo por apenas dois meses, renunciando em 1969 para assumir a Prefeitura de Cuiabá.
A maior parte dos parlamentares foi eleita para a presidência por seus pares, mas alguns assumiram como sucessores regimentais por ocuparem a vice-presidência. O ex-presidente Severiano Benedito de Almeida, por exemplo, assumiu pela segunda vez quando Aecim Tocantins foi nomeado prefeito, em 1954. Essa linha de sucessão também ocorreu com Benedito Antônio de Assunção, após a renúncia de Valdevino Ferreira de Amorim em 1969; com João Barbosa Caramurú, após a posse de Roberto França na Assembleia Legislativa em 1981; e com Haroldo Kuzai, devido ao falecimento de Júlio César Pinheiro em 2016. Registra-se, ainda, ao menos uma eleição suplementar: em dezembro de 2013, Júlio César Pinheiro foi conduzido ao seu segundo mandato após o impedimento de João Emanuel Moreira Lima.
Também é possível identificar laços de parentesco entre alguns dos ex-presidentes. O vereador Evaldo Duarte de Barros, por exemplo, assumiu a presidência em 1970, cargo que havia sido ocupado por seu pai, Gonçalo Antunes de Barros, em 1955. Já Francisca Nunes seguiu os passos do irmão mais velho, Carlos Roberto Santana Nunes, presidente nos anos de 1993 e 1994. Por fim, o ex-presidente João Antônio Cuiabano Malheiros assistiu à posse de seu filho, Justino Malheiros Neto, em 2017.
O cargo máximo do Legislativo cuiabano abriu portas para que diversos parlamentares ocupassem mandatos em outras esferas políticas. Os ex-presidentes Manoel Soares de Campos, Aecim Tocantins, Delphino Santana Rocha de Mattos, Benedito Alves Ferraz, Wilson Araújo Coutinho e Roberto França chegaram ao comando da Prefeitura de Cuiabá. Outros, como Giunchiglio Luigi Bello, Francisca Nunes e Júlio César Pinheiro, assumiram o Executivo municipal temporariamente. Para a Assembleia Legislativa, seguiram Carlos Brito de Lima, Luiz Marinho, Roberto Nunes, Wilson Celso Teixeira, João Malheiros, Francisca Nunes e, mais recentemente, Lídio Barbosa (Juca do Guaraná Filho). Benedito Alves Ferraz e Roberto França também presidiram a ALMT, sendo que este último alcançou ainda uma cadeira na Câmara dos Deputados. Já José Monteiro de Figueiredo, que abre a galeria, foi vice-governador na gestão de José Fragelli. Vale notar que alguns nomes podem soar estranhos ao público por serem mais conhecidos por seus apelidos. É o caso de Lídio Barbosa (Juca do Guaraná Filho), Ana Maria do Couto (Dra. May), Wilson Celso Teixeira (Dentinho), Francisca Nunes (Chica Nunes) e Francisco Carlos Amorim Silveira, o Chico 2000.
Este resgate histórico tem como objetivo primordial homenagear os 43 ex-presidentes da Câmara Municipal de Cuiabá, bem como os inúmeros outros que os antecederam e que, infelizmente, não integram a galeria devido à escassez de imagens e registros da época. Ocupar esse posto confere aos parlamentares uma distinção vitalícia. Afinal, é de praxe que, mesmo após o término do mandato, eles continuem sendo tratados como tais, como se a dignidade do cargo estivesse incorporada aos seus próprios nomes. Portanto, cabe perfeitamente o ditado: “uma vez presidente, para sempre presidente”.
Secretaria de Apoio à Cultura