Nós conhecemos episódios de vacância do cargo de prefeito municipal – ou de chefe de outro poder – em virtude, principalmente, de medidas judiciais condenatórias. No entanto, o caso que apresentaremos neste artigo possui algo que entendemos ser excepcional. Não se trata da ausência de um prefeito, mas da simultânea gestão de dois nomes à frente da Prefeitura Municipal de Cuiabá. Curiosamente, essa história se desenrolou às vésperas do Carnaval, o que poderia reder uma marchinha ou uma telenovela, pois iniciou-se no dia da inauguração da TV Centro América, e para completar, dois meses antes do dia de comemoração dos 250 anos de fundação de Cuiabá.
No dia 12 de fevereiro de 1969, o prefeito Frederico Carlos Soares de Campos foi exonerado pelo governador do Estado, Pedro Pedrossian. O motivo aparente teria sido o desacerto entre ambos devido a questões financeiras, de qualidade e atraso na execução do calçamento das ruas do centro da capital por uma empresa contratada pelo Estado. Frederico Campos decidira que o município assumiria integralmente a obra, o que contrariou o governo do Estado, que havia contratado uma empresa para a reforma das vias. Por previsão legal (Ato Institucional nº 3, de 1966), era prerrogativa dos governadores a nomeação e consequente exoneração de prefeitos das capitais, sob a alegação de garantia da segurança nacional. Pedrossian teria comunicado por telefone a sua decisão a Frederico Campos, e nomeado engenheiro-agrônomo Bento Machado Lobo, então Secretário Estadual de Agricultura. O ato do governador causou um grande desconforto no meio político, que considerou a decisão arbitrária. A população, por sua vez, ficou surpresa e descontente, pois avaliava positivamente a atual administração.
Os vereadores de Cuiabá tomaram conhecimento da exoneração e da nomeação no mesmo dia. No entanto, a duas bancadas – ARENA e MDB – posicionaram-se contra a posse do indicado e anunciaram que a medida legal seria a sucessão do cargo pelo presidente do legislativo cuiabano, o vereador Valdevino Ferreira de Amorim , ao menos de forma interina. O mesmo o Ato Institucional que previa a nomeação de prefeitos da capital pelos governadores condicionava a posse ao consentimento dos deputados estaduais. Ocorre que, naquele mês, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso estava em período de recesso e só reabriria regimentalmente no dia 15 de março. Além disso, vale lembrar que, naquele período, não existia o cargo de vice-prefeito.
No dia seguinte à exoneração, o presidente da Câmara anunciou que ingressaria com um pedido de liminar no Tribunal de Justiça para requerer a sua investidura temporária na chefia do Executivo municipal até a manifestação da Assembleia. A Câmara de Cuiabá recebeu os documentos de Bento Lobo no dia 13 de fevereiro, mas devolveu em seguida ao requerente, alegando a inexistência de uma decisão pela Assembleia. Enquanto isso, a prefeitura via-se esvaziada e cercada pela Polícia Militar. Conforme o jornal O Estado de Mato Grosso, nos primeiros dias após a exoneração de Frederico Campos, as repartições municipais “nada receberam, nada encaminharam e nada decidiram, estando paralisada a máquina administrativa”, enquanto o governador descansava em sua fazenda na cidade de Miranda, como se nada de anormal ocorresse na capital.
Após a pausa do Carnaval (17 a 19 de fevereiro), os vereadores reagiram diante da julgada arbitrariedade do governador. Sete dos treze parlamentares reuniram-se em uma Sessão Especial convocada pelo presidente na manhã do dia 21 de fevereiro. Valdevino recebeu o apoio do seu partido (ARENA), que detinha a maioria das cadeiras, mas não obteve o reconhecimento pelos edis do MDB que, inicialmente a seu favor, teriam se aproximado de Bento Lobo. Amorim foi empossado “prefeito constitucional de Cuiabá" de forma interina, licenciando-se do do seu cargo e transferindo a presidência ao vice-presidente Antônio Benedito de Assunção.
Sendo assim, podemos concordar que Cuiabá passou a contar dois prefeitos: um nomeado pelo governador e o outro pelos edis arenistas. Valdevino de Amorim comunicou à imprensa, a Pedrossian e à população que era – a partir de então – o novo prefeito. Ao governador, disse que passaria a despachar como prefeito e, se necessário, despacharia de uma sede alternativa. Abriu-se, assim, uma disputa que dividiu a opinião pública entre a tese de sucessão pelo presidente do legislativo e a prerrogativa do governador do Estado. Quem perdia com esse impasse e disputa era a cidade. Na Sessão Ordinária de 3 de março, os vereadores apresentaram sete indicações ao prefeito municipal. Mas cabe a pergunta: para qual deles? Restava nesse momento acompanhar as movimentações dos deputados estaduais que retornariam aos trabalhos no dia 15 de março.
Com a abertura dos trabalhos na Assembleia Legislativa e a eleição do presidente René Barbour, a Mensagem do Governador (nº 4/69) para o provimento de Bento Lobo foi encaminhada à Comissão de Constituição e Justiça, que aprovou o parecer favorável por 5 votos a 2. Uma Sessão Extraordinária foi agendada para 24 de março – quarenta dias após a exoneração de Frederico Campos – para votar a indicação. Ao observar as atas das sessões da Câmara nesse intervalo de tempo, despende-se que os vereadores, inclusive os da ARENA, davam como certa a aprovação do nome de Bento Lobo, sugerindo alguns edis que a sua posse fosse antecipada. Finalmente, reunidos em sessão no dia 24 de março, os deputados apreciaram a indicação de Bento Lobo. Ressaltaram em seus discursos que discordavam da postura tomada pelo governador do Estado neste episódio. De acordo com os parlamentares, Pedrossian teria agido de maneira inconsequente, à revelia da Assembleia Legislativa. Sua atitude criou um estágio de conflito na cidade que trouxe prejuízos para a sua população. Diante da presença de sete vereadores, os parlamentares estaduais aprovaram a indicação de Bento Machado Lobo com 11 votos favoráveis, 3 contrários e 7 em branco. O resultado apertado demonstrou o descontentamento dos parlamentares estaduais com a conduta tomada pelo governador.
Valdevino de Amorim – que estava licenciado – apareceu de surpresa na sessão da Câmara no dia 26 de março. Trajando roupas informais, o vereador foi até a sala da presidência e datilografou seu pedido de renúncia. Após o discurso de alguns colegas, Torquato da Silva requereu a constituição de uma comissão para acompanhar Valdevino em sua saída do plenário. Acompanhado da comissão, o já ex-vereador deixou o plenário sob aplausos, encerrando a sua curta passagem como presidente do legislativo cuiabano (31/01/1969 a 21/02/1969). Na manhã do dia seguinte, foi a vez de Bento Machado Lobo ir à Câmara para se tornar oficialmente o novo prefeito de Cuiabá.
Passaram-se 44 dias entre a exoneração de Frederico Campos e a posse definitiva de Bento Lobo. Foi um período de incertezas e desordem administrativa promovida por Pedro Pedrossian. O governador deixou Cuiabá abandonada no significativo ano em que comemorava dois séculos e meio de fundação. Essa passagem histórica que apresentamos neste artigo acabou manchando a belíssima história de Cuiabá.
Danilo Monlevade
Secretaria de Apoio à Cultura
memoria@camaracuiaba.mt.gov.br
Fontes de pesquisa:
Acervo do Instituto de Memória da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.
Livro Ata nº 13 – Arquivo Geral da Câmara Municipal de Cuiabá.
Jornal O Estado de Mato Grosso, ed. 5.417, 5.418, 5.419, 5.428, 5.431 e 5.435.