Na região central da cidade de Cuiabá reúnem-se diversas vias que remetem a datas e personalidades da nossa história. Propomos o roteiro a seguir para a ilustração deste artigo. Partindo da Igreja Nossa Senhora dos Passos, localizada na Rua 27 de Dezembro (Beco do Candieiro), siga pela Rua Voluntários da Pátria. Na terceira esquina encontrará a Rua Barão de Melgaço. Vire à esquerda e siga por ela por aproximadamente 600 metros chegará na Avenida Generoso Ponce. Descendo essa avenida, passe pelo cruzamento com a Rua Antônio Maria e, antes da Rua Antônio João, vire à direita na Rua 13 de Junho. Percorra-a em direção ao Bairro do Porto, e logo depois de cruzar a Rua Comandante Soído, já nas proximidades do Rio Cuiabá, finalize esse trajeto na Rua Comandante Balduíno, endereço da revitalizada Orla do Porto. O percurso que descrevemos possui aproximadamente 3.300 metros e percorre vias da cidade de Cuiabá que têm, em comum, referência aos episódios e personagens da história mato-grossense na Guerra do Paraguai (1864-1870).
O historiador Estêvão de Mendonça registra em sua obra Datas Matogrossenses que, em 5 de junho de 1871, o presidente da Câmara Municipal de Cuiabá, tenente Joaquim Alves Ferreira Sobrinho, publicou um edital em que alterava a denominação de tradicionais vias de Cuiabá. A finalidade do presidente do legislativo era “comemorar fatos heroicos desta Província, durante a guerra contra o governo do Paraguai”, que terminara no ano anterior (1870). Estêvão de Mendonça registra dezenove renomeações, dentre elas, as que citamos no primeiro parágrafo – exceto a Avenida Generoso Ponce, cuja inclusão justificaremos no final. Além das vias citadas nesse “roteiro turístico”, houveram outras ruas renomeadas pela Câmara: Bela Vista (Poção), Comandante Costa (Centro e Porto), Coronel Peixoto (Dom Aquino) e 7 de Setembro (Centro); e mais seis outros logradouros que foram posteriormente renomeados: ruas 2 de Dezembro, 1º de Março, 11 de Julho, Conde d’Eu e Couto Magalhães; e as praças Riachuelo e do Alegre. Destas renomeadas em 1871, sabemos que a Couto Magalhães passou a denominar-se Avenida Dom Aquino. Já a Praça Riachuelo é a atual Benjamin Constant e, a do Alegre, é a atual Moreira Cabral, atuais endereços do Arsenal de Guerra (SESC Arsenal) e, coincidentemente, da Câmara Municipal de Cuiabá.
Para que possamos entender o que conduziu à iniciativa do legislativo cuiabano em 1871 é necessário dissertar sobre esse conflito sul-americano e a participação da então província de Mato Grosso. As tensões entre o Brasil e Paraguai passavam por disputas políticas no Uruguai na primeira metade do século XIX. Discutiam-se questões de fronteira, mas em especial, o estratégico acesso fluvial ao interior via estuário do Prata (confluência dos rios Paraná e Uruguai no Oceano Atlântico). O apoio uruguaio a uma das nações poderia prejudicar o acesso fluvial ao Paraguai e ao Mato Grosso. Quer dizer, se as lideranças uruguaias se aliassem aos paraguaios, a Província de Mato Grosso poderia ficar isolada, visto que o território paraguaio era um caminho mais prático até a província. E por outro lado, caso o apoio fosse dado aos brasileiros, o Paraguai poderia ficar impedido de acessar o Oceano Atlântico, e assim de desenvolver a sua economia. Há uma corrente historiográfica que defende, no entanto, a tese de que os interesses ingleses conduziram as nações do cone sul ao conflito. Diferentemente do Brasil e da Argentina, o Paraguai desenvolvia uma economia independente, promovendo inclusive a industrialização, em vez de se colocar como uma “colônia” exportadora de matéria-prima e importadora de produtos industrializados – a Inglaterra era a principal potência industrial e imperialista do período.
A partir de agora, nós destacaremos em “CAIXA ALTA” a relação histórica do conflito com a nova denominação de dezenove vias de Cuiabá a partir de 1871. A data de início da guerra é 12 de novembro de 1864, quando o navio Marquês de Olinda foi apreendido pelos paraguaios e recolhido em Assunción. No dia seguinte, o Presidente do Paraguai, Francisco Solano López, rompeu relações diplomáticas com o Brasil e, consequentemente, declarou estado de guerra. A bordo do navio apreendido estava o coronel Frederico Carneiro de Campos, que havia sido nomeado o novo presidente de Mato Grosso. Solano López alegou que a embarcação carregava armamentos, que seria isso uma prova de mobilização brasileira a fim de atacar a sua nação, o que não foi comprovado. Sabedor da precária proteção militar em Mato Grosso, ele ordenou a invasão – com uma população de 75 mil pessoas e uma extensão territorial imensa, havia apenas 875 militares na província. De Assunción partiu um batalhão de 4.200 homens via fluvial e, da cidade de Concepción, um batalhão terrestre com 3.000 combatentes. O primeiro ataque ocorreu em 27 DE DEZEMBRO, quando o Forte Coimbra, protegido por 115 soldados brasileiros, foi invadido pela tropa comandada pelo coronel Vicente Barrios. O responsável pela defesa do forte foi Hermenegildo de Albuquerque Portocarrero, que diante do diminuto corpo militar que comandava, optou por uma fuga na noite do dia seguinte, poupando vidas. No dia 4 de janeiro, Barrios invadiu e ocupou a Vila de Corumbá. Já por via terrestre, os invasores atingiram a Colônia Militar de Dourados, que estava guarnecida por apenas 15 homens, sob o comando do tenente ANTÔNIO JOÃO Ribeiro que, após insistente resistência, acabou sendo morto. Outras localidades foram atacadas: Albuquerque, BELA VISTA, Coxim, Miranda, Nioaque e Rio Brilhante. Após essa imediata mobilização paraguaia, estava consumada a ocupação da província por Solano López.
A notícia sobre o avanço estrangeiro no sul da província chegou a Cuiabá no dia 6 de janeiro de 1865. O presidente de Mato Grosso, Alexandre Manoel Albino de Carvalho, conclamou a população para apoiar o Império e convocou as forças militares e os membros da Guarda Nacional da região. Lenine Póvoas afirma que “à medida que chegavam as notícias dos navios inimigos rumo a Cuiabá, a preocupação geral aumentava” e, tal qual ocorrera em outras localidades, parte da população fugia. O governo provincial organizou um grupo armado, sob o comando de Portocarrero – militar que coordenou a retirada do Forte Coimbra –, para defender a capital na região da colina do Melgaço. Um dia depois de instalados na região, os voluntários regressaram por entenderem que seriam derrotados caso o inimigo chegasse, em razão, principalmente, da desvantagem numérica e inexperiência em combate. Diante dessa situação crítica, o experiente almirante Augusto João Manoel Leverger (BARÃO DE MELGAÇO) ofereceu seus serviços ao chefe da província. Leverger conduziu os combatentes cuiabanos de volta à região de Melgaço, treinando-os para o possível embate, que não se consolidou, já que as forças paraguaias não avançaram até a capital. Cuiabá restou prejudicada economicamente, com o seu principal acesso de comunicação e transporte bloqueado. Como responsável pelas posturas municipais, e diante do possível desabastecimento, a Câmara de Cuiabá proibiu a comercialização de produtos de primeira necessidade para fora da cidade.
A Corte Imperial soube da invasão da região em 22 de fevereiro de 1865, através do fazendeiro Joaquim José Gomes da Silva, que havia viajado de Mato Grosso para o Rio de Janeiro. Já no dia 17 de março, receberam um correio de Cuiabá, noticiando oficialmente os acontecimentos. Ainda no dia 10 de abril, partiu de São Paulo uma coluna para um contra-ataque a partir de Cuiabá, mas que no caminho desviou-se para o sul de Mato Grosso, não atendendo a defesa da capital. Para o governo da província, a necessidade maior era a retomada da Vila de Corumbá para a liberação da navegação – Solano López já concentrava os seus soldados no sul do continente e na defesa do território do seu país. Para tanto, o presidente de Mato Grosso, José Vieira COUTO MAGALHÃES, organizou três corpos expedicionários, os denominados VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA (Lei Imperial nº 3.371/1865). Para o comando da tropa, foi designado ANTÔNIO MARIA Coelho. Segundo Lenine Póvoas, quatrocentos homens partiram de Cuiabá em 15 de maio de 1867, a bordo de quatro vapores, e chegaram a uma região abaixo de Corumbá no dia 11 de junho para realizarem um ataque surpresa; o que ocorreu dois dias depois, em 13 DE JUNHO. Este episódio é descrito por Lenine como “sem dúvida, uma das páginas mais brilhantes da História de Mato Grosso (...) um feito eminentemente civil e cuiabano”. Acreditando que a paz havia se restabelecido em Corumbá, os dois corpos expedicionários – com a presença do presidente da província – decidiram retornar para a capital, quando, estacionados os navios em um porto para o reabastecimento, foram surpreendidos por uma embarcação inimiga em perseguição. Travou-se um combate que, devido à liderança do major José Antônio da Costa (COMANDANTE COSTA) e do capitão-tenente BALDUÍNO José Ferreira de Aguiar, acredita Lenine, os cuiabanos saíram mais uma vez vitoriosos. Essa gloriosa batalha, vencida em 11 DE JULHO, ficou conhecida como Combate do ALEGRE.
O contra-ataque dos Aliados (Argentina, Brasil e Uruguai) e as maiores batalhas ocorreram na região sul (Rio Grande do Sul e Argentina) e no território paraguaio. Um marco histórico na contraofensiva brasileira ocorreu com a vitória na Batalha do RIACHUELO, em 11 de junho de 1865, quando a Marinha Brasileira, sob o comando do almirante Tamandaré, impediu o avanço paraguaio pelos rios, que poderia alcançar Buenos Aires. O historiador Boris Fausto entende que a nomeação do Duque de Caxias em outubro de 1866 garantiu o protagonismo brasileiro no conflito. Caxias estruturou o Exército e, com o consequente desmonte paraguaio, conseguiu invadir Assunción em janeiro de 1869. Já doente, Caxias desejava a paz, pois a continuação do conflito traria somente prejuízos e destruição. Por isso, retirou-se do comando, que foi assumido pelo CONDE D’EU, esposo da Princesa Isabel. Encurralado e sem força militar de defesa, Solano López foi morto em 1º DE MARÇO, dando fim ao conflito.
As consequências negativas da guerra para o Brasil foram o aumento do endividamento com a Inglaterra e as perdas humanas. Já o Exército nacional e os seus oficiais saíram vitoriosos, pois após demonstrarem o desleixo do Império com as forças militares, foram considerados os heróis nacionais. Aliás, o seu protagonismo somou-se a outros fatores para a queda da monarquia – o Marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente da República, é considerado um dos heróis brasileiros na Guerra do Paraguai. No caso de Mato Grosso, não podemos omitir inicialmente o lado negativo, que foi a infestação da varíola em 1867 – o CORONEL Francisco Zizenando PEIXOTO dirigiu o hospital da freguesia de São Gonçalo durante a epidemia em Cuiabá. Por outro lado, o fim do conflito e a imobilização paraguaia garantiram a livre navegação e consequente acesso mato-grossense ao mercado. Dá-se à guerra o enobrecimento de personalidades da sua história, como os já citados Barão de Melgaço e Antônio Maria. O primeiro foi nomeado presidente de Mato Grosso, ainda no curso da guerra, de agosto de 1865 a setembro de 1866; e Antônio Maria foi o primeiro governador de Mato Grosso no período republicano, escolhido pelo Governo Provisório de Deodoro da Fonseca.
Antes de encerrarmos, informamos que mesmo após insistentes pesquisas, não encontramos qualquer referência a 2 DE DEZEMBRO, a nova denominação da Rua da Mandioca. Já a Rua 7 DE SETEMBRO faz referência, evidentemente, à Independência do Brasil, muito provavelmente renomeada como uma forma de louvar o Império em tempos necessários de exaltação ao patriotismo; e COMANDANTE SOÍDO, conta-nos Rubens de Mendonça, foi um destacado militar que alcançou o posto de almirante, sendo diretor do Arsenal de Guerra durante o conflito. Para cumprirmos com o prometido, destacamos que a Avenida Generoso Ponce foi colocada propositadamente no nosso roteiro porque também faz parte da história de Mato Grosso no conflito, visto que Generoso Paes Leme de Sousa Ponce – influente político da Primeira República – foi um dos Voluntários da Pátria, participando, com apenas 15 anos, da retomada de Corumbá.
A alteração dos nomes das vias pela Câmara de Cuiabá foi citada como um exemplo de descaracterização identitária no 1º Congresso Nacional de Geografia, registrou Estêvão de Mendonça. Devemos questionar os geógrafos desse encontro na medida em que as renomeações em 1871 serviram para destacar a vitoriosa participação dos voluntários cuiabanos em um conflito internacional que prejudicava a província. Dada a despreocupação com a defesa, Mato Grosso foi uma “presa fácil” para as tropas de Solano López, sofreu com o isolamento e em seguida com a epidemia da varíola. Enquanto isso, o Exército brasileiro concentrava as suas ações na região sul do continente, restando aos civis cuiabanos o restabelecimento do domínio territorial na fronteira oeste do país. São merecidas as homenagens aos personalidades do conflito e o registro dos episódios mais marcantes dessa história pela Câmara de Cuiabá, estabelecendo a identidade de luta da nossa cidade na defesa dos seus interesses.
Danilo Monlevade
Secretaria de Apoio à Cultura
memoria@camaracuiaba.mt.gov.br
Fontes de pesquisa:
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BRITO FILHO, José Messias. A Invasão de Mato Grosso (1864-1865). Revista de Assuntos Militares, 1995.
MARIM, Jérri Roberto. A ocupação paraguaia em Mato Grosso durante a Guerra do Paraguai. Cuiabá: Revista Territórios & Fronteiras, volume 2, 2019.
MEDONÇA, Estêvão de. Datas Matogrossenses. Vol. I. Cuiabá: SEC-MT, 2012.
MENDONÇA, Rubens de. Dicionário Biográfico Mato-Grossense. 2ª Ed. Cuiabá: Fundação Cultural de Mato Grosso, 1971.
___________ História de Mato Grosso. 4ª ed. Cuiabá: Fundação Cultural de Mato Grosso, 1982.
PÓVOAS, Lenine Campos. História Geral de Mato Grosso: da proclamação da República aos dias atuais. Vol. II. Cuiabá: Entrelinhas Editora, 2022.
PÓVOAS, Nilo. Galeria dos Varões Ilustres de Mato Grosso. Vol. I. Cuiabá: Fundação Cultural de Mato Grosso, 1977.